Domingo, 07.02.10
Um dia destes, enquanto esperava por um filme que se visse, dei com o Mathew Modine a ser entrevistado no TCM. Estava precisamente na parte da entrevista em que referiu a sua experiência num filme de Stanley Kubrick.
Definiu-o como um génio e definiu essa experiência como verdadeiramente inesquecível: Na nossa vida o mais importante são as experiências. Não são meses e anos somados... são as experiências significativas.
Para este actor, trabalhar com Stanley Kubrick foi uma dessas experiências.
Achei interessantíssimo ouvi-lo dizer que este realizador era, na sua vida privada, completamente diferente da imagem que lhe associamos de excêntrico, obsessivo, quase louco. Classificou-o mesmo como um homem de família: a sua casa tinha uma enorme cozinha, uma espécie de lugar de convívio familiar, onde a mulher pintava (foi o que percebi, que era pintora), onde os filhos faziam os trabalhos de casa e onde recebiam os amigos. Penso que essa imagem de excêntrico lhe permitia proteger a sua vida privada. Está bem visto.
Na verdade, alimentei durante anos aquela imagem do realizador, de excêntrico e solitário, reforçada pelo génio que sempre lhe reconheci, aquele perfeccionismo.
Mas apesar de lhe reconhecer o génio, não revi nenhum dos seus filmes (a não ser duas excepções). São todos de uma intensidade e de uma violência psicológica, cada um no seu tema específico, que não me apeteceu repetir a experiência.
A não ser, como disse, duas excepções: o Laranja Mecânica, que revi com colegas de faculdade pelo tema em questão, e o Barry Lyndon, de todos os Kubrick o meu preferido.
Em Barry Lyndon encontramos uma fidelidade impressionante a uma época, com personagens fascinantes, que se deixam arrastar pelas paixões: o amor e o ódio, a ambição e a vingança. Todo o filme é uma ópera de cor e de sensualidade, e aquela música a envolver tudo...
Em todos os seus filmes vemos o seu imenso amor ao cinema, um pouco obsessivo, todo aquele perfeccionismo, sim, talvez mesmo excessivo, podemos mesmo aqui falar de paixão genuína. E também podemos falar de génio. No Cinema Stanley Kubrick foi único.
Coincidência feliz: Descobri ainda a tempo este post, O que os outros realizadores dizem de Kubrick, n' O Homem que Sabia Demasiado.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:33
Domingo, 31.01.10
"A Grande História do Cinema" é um projecto ambicioso lançado pelo blogue Cinema is my life. Um projecto "colectivo abrangente" que conta com a "colaboração de vários bloggers conhecidos".
Trata-se de oferecer "um leve estudo sobre a história cinematográfica desde os seus primórdios" e "conhecimentos acerca da evolução do cinema e a sua relação com o contexto social".
Os grandes temas serão apresentados de forma objectiva pelo autor do blogue e depois, no seu desenvolvimento, haverá lugar para uma visão pessoal, "subjectiva", de cada colaborador.
Desafia ainda os seus leitores a participar, o que também animará esta história do Cinema.
Dos blogues que colaboram neste projecto, apenas conheço alguns, além do próprio Cinema is my life: o Cinematograficamente falando e O homem que sabia demasiado. Mas a lista é considerável, como poderão confirmar no post que linkei acima, e será uma óptima oportunidade para me actualizar, blogosfericamente falando.
Vai, pois, valer a pena acompanhar esta iniciativa blogosférica, animada pelo que a todos nos une: o amor ao Cinema.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:46
Sexta-feira, 29.01.10
Foi tema de filme, Moonstruck, o seu feitiço...
Leio no Yahoo que hoje a Lua está visível como não estará em mais nenhuma altura do ano. Chamam-lhe mesmo the wolf moon...
Eu prefiro chamar-lhe Cosmo's moon... como diz uma das personagens do filme. Pelos vistos, Cosmo deixara-se enfeitiçar há muitos anos. Agora, limitava-se a fugir da morte, como lhe diz a mulher ao desconfiar do seu caso. Mas será a filha, uma viúva ainda jovem que perdera a esperança de viver um amor feliz, a submeter-se desta vez ao seu feitiço.
Se puderem, acompanhem esta Lua e vejam o filme.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:16
Quarta-feira, 27.01.10
Associamos Bernard Herrmann aos filmes de Hitchcock: The Trouble With Harry, The Man Who Knew Too Much, Vertigo, North by Northwest, Psycho, Marnie… Destes, talvez a composição mais impressionante seja mesmo a de North by Nothwest… aquela perseguição final no monumento do monte Rushmore…
Mas a minha composição preferida é a de um Nicholas Ray On Dangerous Ground. A música segue o filme, da escuridão da noite citadina, e da violência e revolta do protagonista, até esse lugar na neve, muito branco e solitário. Até chegar a essa casa isolada, onde uma mulher nunca se sente sozinha e compreende o mundo exterior, o mundo que recebe através dos olhos de outros. Esse lugar muito branco será a possibilidade de alguma paz e tranquilidade para este homem.
A música adquire força, intensidade e dramatismo nessa perseguição pela neve. Nunca mais a consegui esquecer, é magnífica. Se virem ou revirem o filme, reparem bem nessa cena da perseguição: está lá a tragédia e o absurdo também, a maior vulnerabilidade, e também a maior dor, a que marca e aprisiona para sempre.
Curiosidade: Como o riso é terapêutico e calculo que muitos de nós precisamos dessa terapia, sugiro que vejam ou revejam este Hitchcock bem-humorado The Trouble With Harry.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:46
Domingo, 24.01.10
Há duas formas de colocar a música num filme, pelo menos é o que verifiquei ao longo de anos a ver filmes: de forma fusional ou de forma justaposta (como uma sinalização ou identificação).
A minha preferida é a primeira, quando a música acompanha as cenas e passa a fazer parte delas. Esta ligação deve implicar um processo muito trabalhoso: a imagem não pode ser submergida pela música, nem a ideia contrariada ou caricaturada, a não ser que seja essa a intenção. Nos filmes de Hitchcock, Bernard Herrman fá-lo de forma magistral.
Embora possa parecer fusional, sempre que a música sugere uma personagem ou um lugar ou uma ideia, considero-a justaposta, como se lhe colássemos em cima uma etiqueta a identificá-los. Exemplo: revi há dias o Guerra e Paz com o Henry Fonda (Pedro) e a Audrey Hepburn (a Natasha mais comovente que já vi) e a música era um pavor. Quando os soldados franceses, já em retirada, se deslocam penosanamente pelos pântanos russos, nesse Inverno rigoroso, há partes em que os acordes sugerem a Marselhesa. Estão a ver a ideia?
Em Manhattan, Woody Allen revela o seu amor a Nova Iorque e é a música de George Gershwin que nos acompanha. Em muitos dos seus filmes a banda sonora é uma homenagem a compositores americanos.
Assim também é nos musicais: a música adquire um estatuto próprio, os actores colocam-se quase em sentido, passam a cantores. Mesmo que o façam naturalmente, como na Serenata à Chuva.
Bem, hoje pensei em Leonard Bernstein, não pelo seu West Side Story mas pelo filme On The Waterfront. No filme a música acompanha as cenas e as personagens de tal forma que deixamos de conceber a imagem sem a música e a música sem a imagem. Vai do poético ao bélico e do bélico ao poético. Agarra-nos. Hipnotiza-nos.
O filme em si é um desafio, metade acção exterior, ameaças, perseguições, lutas desiguais, metade acção interior, o conflito, a dúvida, a revolta. Afinal, é Elia Kazan. É fascinante ver como a música consegue ligar tudo isso e transportar-nos para essa parte da cidade, a parte escura, a parte violenta. E para esse refúgio no terraço de um prédio, onde o rapaz cria pombos. Metaforicamente o filme é belissimo. (Lembram-se de um outro terraço assim, de um prédio escuro, no Blade Runner?)
Leonard Bernstein pertence a um grupo de pessoas com uma sensibilidade musical invulgar. Lembram-se dos seus Concertos para Jovens? Além de descodificar as frases musicais, a ideia, a emoção, o sentimento, e de nos ensinar a identificar os instrumentos e o seu papel ali, enquadra o compositor na sua época. Um professor magnífico, com uma rara capacidade de comunicação e de agarrar os ouvintes.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:44
Sábado, 23.01.10
Do Vontade Indómita dois posts que nos levam até Berlim e a um bater de asas que nos recorda um filme poético de Wim Wenders e a maior aventura de um anjo: tornar-se homem, e ficar sujeito à condição de mortal, às sensações, às emoções, aos sentimentos.
" Der himmel über Berlin

Als das Kind Kind war, / ging es mit hängenden Armen, / wollte der Bach sei ein Fluß, / der Fluß sei ein Strom, / und diese Pfütze das Meer. // Als das Kind Kind war, / wußte es nicht, / daß es Kind war, / alles war ihm beseelt, / und alle Seelen waren eins. [...]
Não sei alemão. Não obstante, este poema de Peter Handke em voz-off, na cena da impressionante Staatsbibliothek, é dos momentos «mais belos» (ordem estética) do filme de Wenders. Por isso, amanhã de manhã para lá vou eu, com a fonética destra métrica na cabeça à procura de Damiel e Cassiel. Para o que der e vier. "
" ao fim de uns dias,
a neve continua a cobrir a cidade com um manto branco e posso igualmente dizer que ainda não encontrei Damiel ou Cassiel. Nem na Staatsbibliothek, nem na estátua ao cimo da Siegessäule onde Wenders os filmou. No entanto, já vi uma ou outra mulher com a leveza & graça da trapezista Marion. Essa mesma figura misteriosa e solitária que foi a responsável por fazer um anjo recusar a dádiva divina, insípida e sentimentalmente distante da imortalidade. Uma ou outra, dizia eu, ou não fosse esta semana a Fashion Week Berlin. "
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:55
Sexta-feira, 22.01.10
Descobri este post magnífico n' O Cachimbo de Magritte que aborda um dos temas mais difíceis: a natureza do mal e as suas diversas dimensões. E a emoção mais primitiva, ao serviço da sobrevivência:
" O Medo
Em A Volta ao Dia em 80 Mundos, Julio Cortázar narra um episódio ocorrido num autocarro parisiense (tentem não se distrair com a aliteração) e dá-lhe o nome de Encontro com o Mal. Nos autocarros parisienses e, presumo, na maior parte dos transportes colectivos do mundo ocidental, podemos esperar os acontecimentos mais insólitos. Eu já fui testemunha de uma boa dezena de tais acontecimentos e acredito não ser mais azarado ou mais atento do que a maioria dos cidadãos que, por questões económicas ou de deficiente ordenamento do território, é obrigada a frequentar diariamente os veículos dos TST. Se, com o nosso exagero meridional, podemos classificar algumas dessas experiências como “infernais” ou, os como dirão os que ao exagero juntam a erudição, “dantescas”, não será, porém, razoável que esperemos um encontro com o Mal. Seria uma experiência que nem o preço dos bilhetes poderia justificar. O Mal, visto por Cortázar, é um homem de “sobretudo e chapéu pretos”. Deixo para quem sabe: “A certa altura, tive consciência do medo que se tinha vindo a instalar naquele corredor, no qual jamais alguém teria pensado que um dia sentiria medo. Não sei descrever uma coisa destas [os escritores como Cortázar têm a tendência a desvalorizar as suas capacidades para, de seguida, nos impressionarem com os seus recursos]; era uma aura, uma irradiação de mal, uma presença abominável.” Prossegue o argentino: “Dizer que era o Mal não é dizer nada; conhecemos as suas caras sorridentes e os seus múltiplos jogos amáveis [não é o Diabo capaz de se transformar em anjo de luz?]. O insuportável (e isso sentia-o o revisor na sua simplicidade, sentíamo-lo todos a partir dos nossos diversos horizontes) era a ausência de qualquer símbolo revelador.” O que Cortázar quer dizer é que o Mal é um vazio de sentido e que o medo alimenta-se desse vazio.
Guy de Maupassant descreveu, talvez melhor do que ninguém, esse sentimento que não deve ser confundido com outras emoções limítrofes: “Um homem enérgico nunca tem medo perante um perigo iminente. Sente-se emocionado, agitado, ansioso; mas o medo é outra coisa.” Estas palavras foram escritas por Maupassant num conto que se chama, sem surpresas, O Medo. E o que é o medo? O medo “acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas, face a ameaças vagas. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora.” Se Maupassant tivesse ficado por aqui nós teríamos medo, porque esta é uma descrição um tanto vaga. Mas, logo a seguir e através do relato de uma personagem, ilustra o sentimento. O homem em questão foi confrontado com o medo em duas situações bastante distintas: a primeira, no deserto, em plena luz do dia. A segunda, numa noite fria de Dezembro, num bosque do nordeste de França. A primeira diz-nos que o medo não é necessariamente, e ao contrário do que o cinema de terror nos fez crer, um animal noctívago. A segunda é uma representação mais tradicional - centro-europeia e grimmesca – do medo. Um bosque, uma casa no meio do bosque, a noite, condições atmosféricas desfavoráveis – aquilo com que se assustam as crianças. Para o estudo do medo, e até para seguirmos a lógica iniciada com Cortázar, a primeira situação é muito mais produtiva. Em plena luz do dia e no deserto (Maupassant diz que o medo é filho do Norte e que “o sol dissipa-o como uma névoa”), o medo é mais puro porque se funda no absoluto vazio de referências que normalmente nos permitem pressenti-lo. O deserto não tem esquinas nem sombras. O medo que aí se possa sentir paira mais acima. Cobre toda a extensão de areia, mas não se manifesta claramente. É a tal ameaça vaga e indecifrável. No conto, os árabes que acompanham o homem dizem: “A morte está sobre nós”. Em todo o lado e em lado nenhum, como o Deus único dos israelitas – uma invenção do deserto.
Quando Hitchcock quis desafiar as convenções do suspense, criou uma das cenas mais fascinantes de toda a sua obra e da história do cinema. Colocou um homem no meio do nada, num espaço aberto, em plena luz do dia, à espera de qualquer coisa. Nunca o medo foi tão abstracto. A cena, como o leitor cinéfilo já terá deduzido, pertence a North by Northwest e é a matriz de outros filmes, como Duel, de Steven Spielberg, em que o Mal não se esconde à noite atrás de uma porta fechada. Se o tempo nos permitir, ainda voltaremos a Hitchcock. Para já, aproveitemos o boleia do camião de Spielberg para avançar. Nós ficamos sem saber quem conduz o camião que persegue aquele pobre homem pelas estradas secundárias da América. O Mal não tem rosto (no que se parece com o Deus de Moisés), nem uma causa que o explique. Para todos os efeitos, o camião é guiado por ninguém e o homem perseguido, ocupado em manter-se inteiro, não pode perder tempo a pensar nas motivações do inimigo (no fundo, é a história de Nobody a perseguir o Everyman).
Este assustador vazio de sentido pode ser encontrado amiúde na literatura fantástica. E nada melhor do que animais em fúria para acentuar o irracional. Consideremos alguns exemplos. Os Cavalos de Abdera, de Leopoldo Lugones, O Terror, novela de Arthur Machen e o conto Os Pássaros, de Daphne du Maurier, são três relatos sobre o tema dos ataques inexplicáveis de animais contra humanos. As narrativas das obras de Machen e de du Maurier decorrem em períodos de guerra, pelo que ambas podem ser lidas como alegorias em que os animais simbolizam a ameaça exterior. Nos dois casos, o estilo é realista. O conto de Lugones é muito diferente. É um conto mitológico, temperado com um humor ausente nos outros dois. Lugones fala da célebre raça de cavalos de Abdera, os quais eram tão acarinhados pelos seus donos que alguns destes até tinham o hábito de os admitir à mesa. Tamanha deferência resulta em tragédia porque os animais, entusiasmados com o estatuto que lhes é concedido, resolvem atacar a cidade, destruindo as casas e matando os habitantes. Não é dada qualquer explicação para o comportamento dos animais, embora possamos arriscar uma interpretação; Lugones alerta para os efeitos perversos de uma educação laxista ou, o que também não é descabido, desenha uma metáfora sobre as relações de poder na sociedade: os “cavalos” devem ser tratados como cavalos ou corremos o risco de um dia os encontrarmos na cama com as nossas donzelas. Em O Terror, os ataques são levados a cabo por aves, cavalos e – suspenda-se a descrença – pirilampos. No conto de du Maurier, os responsáveis são os do título, uma Luftwaffe do Mal, passe o pleonasmo. O filme de Hitchcock (com argumento de Evan Hunter) é muito melhor enquanto ensaio sobre o Mal porque é expurgado do subtexto da guerra. Em nenhum momento somos convidados a ver o filme como uma alegoria da guerra. No filme, o escatológico (it’s the end of the world) é bíblico, metafísico, enquanto que, no conto, é uma representação literária de ameaças reais.
Em qualquer destes casos, o medo radica na ausência de qualquer explicação plausível para a irrupção do Mal. Um homicida maníaco ou os alemães (O Terror) e a vaga de frio (Os Pássaros) oferecem “pelo menos, a tranquilidade de uma explicação, e qualquer explicação, ainda que pobre, é melhor do que um mistério terrível e intolerável”, para citar uma passagem do livro de Machen. O mistério terrível e intolerável do ruído de tambores no meio do deserto e da fúria de animais enlouquecidos ou assustadoramente conscientes; o mistério terrível e intolerável de um homem numa estrada deserta e de um homem de sobretudo e chapéu pretos num autocarro em Paris. Esse mistério a que fomos chamando de Mal tem outro nome familiar e, ao mesmo tempo, longínquo. É a morte, a que está sobre nós.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:00
Quinta-feira, 21.01.10
Quantas vezes não é uma música que nos salva?, que nos anima?, que nos vem lembrar que ainda há surpresas à nossa espera?
Alguns sons, uma voz, e voltamos a esse lugar mágico! Uma claridade que não sabemos definir. Deve ser a nossa própria claridade que transportamos connosco, mas de que nos esquecemos até alguma coisa nos lembrar o essencial de nós.
A música é uma delas. Uma coisa essencial.
A primeira coisa que conhecemos é um som ritmado, o som de um coração que bate. Embala-nos desde o início. Os sons e as sensações. Só depois abrimos os olhos.
Em muitos momentos determinantes da minha vida a música esteve sempre presente. Acompanhou-me de perto, de muito perto. Como se marcasse o ritmo dos meus pensamentos, a minha respiração. Como se marcasse as cenas do filme em que se foi tornando a minha vida, às vezes David Lean, às vezes Frank Capra, mas também às vezes Woody Allen (embora eu o contrarie)... Só espero é que o Ingmar Bergman nunca me apanhe...
O Cinema sempre entendeu a importância da música porque desde o início se fez acompanhar por ela. E logo desde o início, antes do sonoro.
Com a música as cenas adquirem outra intensidade e também outra densidade.
Há algumas músicas de filmes que me fascinaram desde logo e que ainda são as minhas preferidas. Como estão ligadas aos filmes, irei falar de cada uma em próximos posts.
Hoje é só para lançar este desafio:
Quando virem ou revirem Immortal Beloved, sobre a vida atribulada de Beethoven, reparem na importância da música como expressão da agitação interior e dos sonhos originais, que aqui permanecem vivos, apesar do sofrimento, da solidão e da decadência.
Beethoven é um exemplo comovente de um génio que ultrapassa a maior limitação de todas para um compositor: a surdez prematura. No seu caso, as notas musicais são mentais. As suas últimas composições já não lhe eram acessíveis: ouvia-as mentalmente. É esta a dimensão do seu génio.
Mas Beethoven também ultrapassa a pior limitação de todas: a ausência de paixão. A paixão está ainda viva nas suas composições, mesmo perto do fim.
Reparem bem nessa correria da criança ao som do Hino à Alegria, nessa noite de estrelas, a fugir da violência paterna e a encontrar refúgio no reflexo universal de mil pontinhos luminosos, nesse lago muito quieto.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:43
Terça-feira, 19.01.10
Do Albergue Espanhol este post de Luís Naves sobre livros e filmes, neste caso de ficção científica mas que, no fundo, nos levam sempre ao essencial da natureza humana e do seu destino.
" Leitura portátil
por Luís Naves

O fim da Humanidade
A literatura tem extensa tradição de histórias pós-apocalípticas, sobretudo no género da ficção científica, mas há exemplos clássicos de relatos sobre a deambulação desesperada de personagens por mundos em colapso e paisagens desoladas. A crueldade das guerras deve ter produzido as primeiras referências, mas a destruição da humanidade é um mote mais recente. Nos cinemas está ainda em exibição um óptimo filme sobre o tema, A Estrada (na imagem), baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy. [Ficamos na dúvida sobre a causa do apocalipse, mas os incêndios florestais a posteriori fizeram-me pensar na hipótese de asteróide].
O cinema adora este assunto (Mad Max, Waterworld) e já existe a tecnologia para o explorar. Na literatura, o tema terá aparecido com os românticos, mas foi usado por autores difíceis de classificar (Jack London, por exemplo).
Jules Verne e H. G. Wells exploraram o filão, que se tornou típico da literatura de imaginação científica. Mas a grande explosão de histórias surgiu no tempo da Guerra Fria, quando a destruição do planeta era uma possibilidade que não levaria mais do que alguns minutos de decisões erradas.
Há apocalipses de vários tipos, das invasões à doença. Dois livros famosos exploraram a destruição civilizacional criada pela cegueira súbita da humanidade: O Dia das Trífides, um sci-fi do britânico John Windham; e outro mais recente, Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, onde se imagina um mundo pós-apocalíptico parecido com um campo de concentração.
Quando eu era miúdo e devorava livros da colecção Argonauta, gostei especialmente de um romance muito imaginativo, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr. É também uma notável reflexão sobre a religião, a força dos dogmas e a teimosia humana. Miller era sobretudo um autor de contos e surge exactamente neste formato um dos textos mais devastadores que já li sobre distopias pós-apocalípticas. Chama-se Lot, é da autoria de um obscuro jornalista e escritor americano, Ward Moore, que para a posteridade deixou esta história de uma dezena de páginas. Há um conto semelhante, de Júlio Cortazar, A Autoestrada do Sul que deu origem a um filme de Godard, Weekend; mas Lot também inspirou filmes (parece que nem pagaram direitos ao autor, limitando-se a roubar a ideia).
E que ideia é essa? Moore imagina uma ameaça (talvez uma guerra nuclear) e um homem menos que banal, que tem um plano de fuga da sua família. Esta corrida para a segurança prevê passos intermédios, incluindo chegar a determinada autoestrada em certa quantidade de minutos, levar apenas o essencial no carro, sacrificar o cão, escapar aos engarrafamentos de tráfego, por aí fora.
Seguimos o protagonista e os seus cálculos cada vez mais mesquinhos; a acção acelera, à medida que a condução fica mais brutal; a família discute; o mundo torna-se alucinante, enquanto a fuga avança e o tempo escasseia. Mas o leitor não está preparado para o final da história, que me parece ser um monumento literário sobre a natureza humana, no que ela tem de primitivo e, apesar de tudo, de complexo e impiedoso. Em Lot, o golpe de asa está no desenlace tão lógico que só podia ser aquele. Pelo contrário, em A Estrada é um final mole que desilude e enfraquece uma ideia que tem dado pano para mangas. "
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:34
Segunda-feira, 18.01.10
Raramente veremos alguém tão inflamado e transfigurado como Martin Scorsese quando fala de Cinema e dos grandes cineastas do séc. XX. Desta vez foi nos Globos de Ouro 2010 que vi ontem até às tantas.
É realmente enternecedor ver este homem baixinho, de óculos enormes, entusiasmado com o trabalho de restauro dos filmes de Cecil B. DeMille. É esse lado apaixonado pelo Cinema que eu mais aprecio em Scorsese, embora lhe reconheça um enorme talento. Aquele Taxi Driver... o New York, New York... A Cor do Dinheiro... A Última Tentação de Cristo... o comovente Kundun... E, mais recentemente, O Aviador...
Mas no seu trabalho de divulgação do Cinema, do cinema-arte, Scorsese é único! O seu documentário A Personal Journey With Martin Scorsese Through American Movies (1995), por exemplo é, em si mesmo, uma verdadeira obra-prima! Gravei a série, que passou na televisão, quando a RTP2 era um oásis cultural.
Só pelo seu breve discurso sincopado - Scorsese fala aos tropeções, muito rapidamente -, quando foi ao palco receber o Prémio, valeu a pena assistir à cerimónia até ao fim. O Prémio Cecil B. DeMille aqui aplica-se muitíssimo bem!
Também gostei de ver em palco Robert de Niro e Leonardo di Caprio a apresentar o amigo Scorsese e a entregar-lhe o Prémio. Foi um dos momentos mais autênticos e genuínos, de uma cerimónia muito artificial, e apresentada por um humorista inglês sintonizado com a superficialidade de um certo humor americano.
De resto, gostei do breve discurso do realizador alemão Michael Haneke.
E gostei de ver a elegância de Jessica Lange, a destacar-se claramente das outras mulheres. A diferença não estava apenas no vestido, impecável - havia alguns outros vestidos originais -, mas na pose sóbria e amável.
Também gostei de ver na assistência um George Clooney completamente absorvido na causa do Haiti.
Tenho falado aqui de paixão e de energia vital. No meu caso, já devem ter reparado que o meu discurso muda logo quando me dedico ao cinema, aos livros ou a outras vozes que descubro na blogosfera.
Hoje a minha descoberta é esta grande surpresa: a amável Equipa do Sapo destaca as_coisas_essenciais. Obrigada. Esta é já uma grande família de bloggers a criar e a comunicar, a reflectir e a trocar ideias.
Que quem por aqui passe se sinta bem recebido, pois n' as_coisas_essenciais há sempre um lugar para todos os viajantes.
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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:08